Operária das Artes (texto em construção, por hora só lançando idéias)



Estive bloqueada por um tempo.
Isso acontece de tempos em tempos.
Estou retornando mais uma vez...
Agora trabalho no Museu de arte Contemporânea do RS - o MAC/RS.
Sou operária das artes. O que me bloqueou bastante, mas ao mesmo tempo alimentou em muito minha reflexão.



O trabalho no MAC me consome muitas forças e ao mesmo tempo me apresenta um dia-a-dia no mundo das artes que banalizou um pouco a percepção e a sensibilidade da coisa. Atualmente as exposições se apresentam como uma fila de interesses, um ambiente social, uma percepção poética difusa e equivocada. Vejo muitos colegas que "vivem da arte" tão preocupados em correr atrás que, para minha sensibilidade, prejudica o trabalho... é "feito para" como numa indústria...mais um produto cultural...me falta alma, não me conecto...passei um monte de tempo sem ir nas exposições por conta disso...sentia o circuito artístico como uma fábrica, mais uma fábrica urbana, condensada e condicionada à pressa contemporânea.
Não vivo da arte, mas por outro lado acabo com pouco tempo para minha produção. É o outro lado da moeda. Minha produção é muito lenta e interdisciplinar.
Quem vive de arte, acaba se obrigando a participar de tudo e ter um ritmo de produção acelerado. Isso me deixa um pouco desconfiada sobre o real diálogo entre artista e obra. O que levo pra casa é vivo ou produto?
Sim, a grande arte no sentido de quantidade, está condicionada, tão profissionalizada que sinto muita falta de seu lado mais "espiritual"...



Claro, isso pode estar sendo uma idéia romântica. É necessário sim, organizar e profissionalizar para que os bons artistas apareçam, mas por conta disso, muito produto cultural é produzido. Tem-se que fazer uma certa triagem...é igual comprar perfume...vai-se cheirando tantos que quando chega num bom o olfato já não reconhece mais...
Mas é claro que falo isso em função de minhas experiências, do fato de estar depurando, para aproveitar mais. Não é uma fórmula pra ninguém, mas observações pessoais obtidas após uma trajetória, onde é necessário a avaliação em quantidade para o entendimento das questões de qualidade. E essa experiência, sim, eu recomendo para quem deseja apurar sensibilidade e percepção.



Dentro disso, voltei minha produção para algo que tivesse o tal do conceito artístico, mas que também me trouxesse prazer e conexão.
Neste momento produzo uma série especial de micro-aquarelas figurativas em molduras douradas, que tanto lembram quadros antigos e o referencial popular de arte, quanto referenciam-se na valorização da sensibilidade artística proposta nos templos orientais, contrapondo o peso do ouro à leveza da imagem. Ainda, cada peça possuirá uma lupa que a acompanhará, propondo um deslocamento do observador para dentro da imagem. Essa lupa aproxima o trabalho das questões contemporâneas, de enxergar o mundo por filtros, monitores; de buscar a imagem direcionando um instrumento que pode ser uma câmera digital ou a lupa. Tem relação com meu trabalho de filmar, de registro de imagem/paisagem...
Série e conceitos em construção..



Assim, vejo como linhas de trabalho as aquarelas, os recortes de madeira que ainda quero retomar e as produções em audiovisual, que não chegam a ser videoarte, mas tem uma ligação com meu trabalho sobre sistema da arte.



Mas no fundo, no fundo, gosto da simplicidade da aquarela...
é quando me sinto amando a arte.
Assim como tem alguns artistas que gosto de ver, compro os trabalhos...sim...gosto de colecionar, pinçar dentre tanto, aquilo que me emociona, e ter. Minha coleção.
Mas o papo de minha coleção fica pra outra hora...