Aquarelas de Outubro 2009

Faz tempo que não posto nada por aqui. Parei quase completamente em função da gestão artística da AZUL Produtora Galeria, meu querido projeto laboratório sobre tudo. Esse tempo todo me proporcionou muitas experiências e reflexões. Uma destas reflexões é o hibridismo que acontece na aquarela entre o desenho e a pintura e que tanto me favorece. As vezes brinco com o não figurativo, me delicio com os diálogos com a composição, mas chega uma hora que sinto falta da forma reconhecível, e o que era mancha sugere um bicho e assim vem vindo uma aquarela onírica, sombria e sinistra, feita de transparências coloridas. Sinto falta da gestualidade, do fazer sensível. To um pouco enfastiada de tanta reflexão, sacação, conceito, ready made, assemblage, exposições, bienais, aaaaahhhhhhhhhh quero voltar pro útero, pras tintas, pra mim mesma, pra doçura de uma tarde quente e preguiçosa de verão, com alguns poucos e íntimos amigos pra conversar ou apenas meu amado gato Pinguim por companhia enquanto faço minhas aquarelas olhando o jardim e sentindo a aragem no rosto junto com carinhos de sol e sombras. E tá ótimo...

Estou com muitas saudades de mim mesma e minha maior diversão e esperança é programar desprogramar tantos compromissos sociais. Quero tecer vagarosamente manchas e linhas que assumem vida própria e se tornam personagens de um imaginário orquestrado pelo som do vento, da vegetação e dos milhares de sons que já são presentes todos os dias em nossa vida, como o nascer do sol e seu poente. Quero pensar em toda essa beleza e me encantar com ela, sem ninguém me cutucando pra dizer algo fútil ou cabeção. Quero o silêncio da observação e talvez um comentário que seja apenas um sorriso de satisfação compartilhada. Chega de tanta empáfia, tantas certezas, tantos conhecimentos e celebridades que absolutamente perdem seu significado diariamente ao serem atropelados por mais informação, muito mais celebridades e tantas outras certezas e opiniões. Me angustia a insistência social da participação no salão, no prêmio, na coletiva, na vernissage, na bienal, no seminário, no debate....que saco!
Agora esgotou, enchi, cansei. Vou procurar a essência e o sossego com a paz divina de não precisar me esforçar todos os dias para manter um mito.
Agora simplesmente sou...sou bebum, irreverente e livre. Já conheci os códigos de perto e tudo que sei é que não preciso dessas dores e angústias, duvido muito dessas verdades e não há esforço criativo que valha algo para além de você mesmo, logo, nada mais importa que minha paz e felicidade e que não existe heróis, eu não sou herói e nem quero mais ser... faço aquarelas, ponto.
Por enquanto tá bom.
Durante essa nova transição está ótimo.
Nunca definiram se a aquarela é pintura ou desenho. Sempre quis ser uma pintora, mas com muito mais talento para os gráficos, para a linha. Quem sabe se não é no hibridismo da aquarela que reside meu paraíso onírico e poético.